Você não deveria ter me virado as costas

Você não deveria ter me excluído, irmã.

Eu tenho uma amiga negra, pretinha, feminista negra. Um amor de sororidade com as negras, de todos os credos. E ela estava muito preocupada com a denúncia de uma outra negra sobre uma perseguição anônima à qual a mesma atribuía a uma feminista branca de uma vertente demonizada. Essa minha amiga chamou uma outra negra, não a vítima, mas uma amiga da vítima para conversar no Skype e tão logo a outra soube do feminismo da outra, ela desligou o Skype na cara dessa minha amiga. Me doeu. Essa minha amiga tem câncer. E um coração enorme. E talvez um dia ela não esteja aqui entre nós e será uma grande perda para o Brasil. Será uma grande perda para as mulheres negras brasileiras e até para as brancas pois sem combate ao racismo não há feminismo.

Machos que estejam lendo isso vão me chamar de sensacionalista por falar do câncer da minha amiga. Talvez brancas blasés também façam isso. Claro que farão. Estou habituada a ter meus choros e dramas a serem banalizados como teatro de novela mexicana. Eu sou aquela que só tem desgraça pra contar e as pessoas de classe média se cansam fácil de mim porque são tantas dores e tanta luta e tanto retrocesso que elas muitas vezes me olham com desconfiança. Acham que inventam porque uma vida surreal só é coisa das novelas. Ignoram que periféricas têm uma dor e desgraça por dia pra contar. E das piores. E essas desgraças cansam mesmo. Cauterizam até os ouvintes. Ficam banais por serem do cotidiano.

Com o descaso das brancas e seu blaserismo eu já estou acostumada desde pequenininha. Com o desprezo dos homens negros também. Com a violência então nem se fala. Eu sou aquela que leva fácil porrada de polícia. E que os homens e meninos viam como raimunda, feia de rosto, mas bonita de bunda. Eu sou encarada como o depósito de porra dos que não se importam em fechar os olhos enquanto mete por trás. Eu sou aquela que foi invisibilizada na sociedade e até na escola. Que sofria perseguição braba pelo cabelo duro que quebrava pente. Sou aquela que choca as pessoas quando abre a boca porque empregadas domésticas não deveriam ser tão bem articuladas e letradas. Causo vergonha e ódio na classe média com meu currículo e discurso. Sou aquela que veio mesmo da favela, que morou em barraco, que bebia água com larva, que tinha a barriga lotada de vermes e a boca cheia de cáries. E que teve que interromper o sonho de estudar física por diversos fatores mas um deles foi por analisar que a esquerda não falava a língua e nem a voz dos mais pobres. Não tangia com a nossa realidade e era muito feita de demagogia. Que ficou indignada com a banalização da hiper-sexualização de meninas como eu fui um dia, negras da periferia. Que nos discursos feministas da classe média era escolha, era liberdade, era inócuo, salubre. Sou aquela que pagou caro por esse discurso engravidando compulsoriamente aos 17 anos. E que sabia que tanto comigo quanto com as outras era forçado. E pior, era abusivo. Briguei com machos de esquerda que me tachavam de conservadora porque eu ameaçava o “direito” deles de “comer” as meninas de 13, 14, 16 anos quando eles sabiam do deleite que era ficar nas margens do feminismo só para terem o saco lambido pelas mais inexperientes na luta (como eu já fui um dia). Um deles me mandou tomar no cu e feministas jovens brancas aplaudiram. As negras foram coniventes. Fingiram que não viram.

Eu sou aquela que se expôs de uma forma muito íntima sobre violência sexual infantil incestuosa. E foi uma das muitas pontes para outras falarem a respeito também. Sou aquela que esteve aqui desde sempre esperando a performance feminista passar e os projetos que eu tinha em mente enfim serem ouvidos. Eu ainda tenho muitos e acho eles muito bons, mas me faltam apoiadoras. As que apoiam são poucas porque não fazem parte do feminismo mainstream.

Eu sou aquela negra que teve que ler machos dizendo para outras mulheres “ela é rad” para desvalorizar meus textos e projetos e os mesmos serem excluídos na hora da timeline e boicotados. E os projetos não chegaram na periferia porque sempre que alguma mulher diz “que ótima ideia, quero apoiar” uma outra pessoa diz “ela é bruxa”.

Eu sou aquela negra que largou o feminismo por decepção com as mulheres de todas as etnias e vertentes. Aquela pela qual as feministas dizem lutar mas que facilmente silenciam.

Eu e minhas amigas negras, ainda persistentes, ainda feministas, não deveriam ter sido abandonadas por vocês. Somos negras.

Me doi ver que vocês criam laços com machos, até machos brancos, com machos de classe média, mas seguem listas “negras” contendo nosso nome. São coniventes com a exposição, difamação e isolamento. E se formos impedidas de ingressar aquela vaga tão difícil, onde estarão as negras feministas se não dizendo que somos piores que machos? E se formos estupradas? Onde estarão as negras feministas se não dizendo que merecemos ser estupradas? Ou mesmo sendo conivente com discurso de estupro e violência para com a gente?

Já pensou na repercusão que é a demonização de negras da nossa vertente? Nem com as brancas de direita como aquela repórter reaça vocês fazem isso. Que consciência feminista é essa que eu tenho (mesmo nem sendo mais feminista) e vocês não?

Vocês não deveriam mesmo ter me banido do facebooks de vocês. E nem ter fechado os olhos para a nossa exposição que hoje nos coloca em perigo fora da internet, nas universidades principalmente. Vocês desconhecem as ameaças que sofremos e as violências fora da internet que vivenciamos por causa do estigma de bruxas. Eu li e leio todos os dias insultos e discursos de ódio contra mim. Meu nome, com a minha foto, já foi para uma lista na internet. Uma mina branca me reconheceu na faculdade e repassou informações minhas para uma pessoa estupradora, que vocês mesmas sabem que é muito misógina mas nem ela sabe. Minha sorte é que eu vigiava ela antes de ela me vigiar e sabia do sorriso falso dela enquanto ela acreditava que eu era apenas uma simpática ingênua. Há outras histórias de violências e perseguições contra mulheres, mulheres que hoje são perseguidas feito bruxas pelos próprio feminismo.

Vocês me desmentem, vocês me descredibilizam. Vocês me tratam como néscia. Como ingênua porque vim da favela e a maioria de vocês não. Vocês confundem minha simpatia e empatia com estupidez. E quando não me atacam diretamente, me atacam indiretamente pela conivência.

Se as feministas corretas são vocês, cadê vocês fazendo o papel de heroínas e vindo até a gente explicar tim tim por tim tim o que as desprovidas de racionalidade não entenderam? Cadê vocês nos livrandos das mãos de brancas manipuladoras? Cadê vocês nos ensinando?

O número de mulheres preconceituosas é de bilhões e no feminismo eu aprendi que o preconceito delas não deveria ser empecilho para a minha sororidade e diálogo. No lugar onde cresci mesmo, a maioria é lesbófoba, praticam “slutshaming” e várias outras discriminações.

Só me resta crer que a classe social de vocês falou mais alto do que a cor de pele, porque eu ainda acho que vocês não deveriam ter sido hipócritas e virado as costas para mulheres negras e ter lhes negado espaço e diálogo.

Anúncios